A arte da procrastinação: os benefícios de esperar até o último minuto

a arte da procrastinação

Em 1970, uma revista contratou um jornalista para cobrir a famosa corrida de cavalos “Kentucky Derby”. O jornalista compareceu na corrida e fez anotações, mas na hora de escrever a matéria, ele atrasou demais. Foi uma verdadeira arte de procrastinação! Quando chegou o prazo, em vez de um artigo completo, ele apressadamente arrancou as páginas do caderno com as anotações e as enviou para a gráfica.

Com o risco de estragar sua carreira por conta da procrastinação extrema no artigo apressado, a matéria resultante, “A Kentucky Derby é decadente e depravada”, tornou-se uma das matérias mais famosas de Hunter S. Thompson, dando início a um gênero de jornalismo conhecido como “gonzo”.

Os benefícios da procrastinação

A procrastinação é ruim — pelo menos é isso que sempre ouvimos. Ainda assim, a história da humanidade é cheia de relatos de famosos especialistas na arte de procrastinar.

O arquiteto Frank Lloyd Wright desenhou sua obra-prima mais renomada, Fallingwater, em apenas duas horas, incentivado pelo fato de que seu cliente estava prestes a visitá-lo para acompanhar o progresso da obra.

A autora Margaret Atwood disse certa vez que ela “passava a manhã procrastinando e se preocupando, depois mergulhava no manuscrito em um turbilhão de ansiedade às 15h”.

E a procrastinação de Herman Melville era tão grave que dizem que ele pediu à esposa que o acorrentasse à mesa para que ele conseguisse terminar de escrever Moby Dick.

Agora, alguns de vocês devem estar lendo isso e pensando: “Correlação não implica causalidade!”

Tudo bem, é verdade.

Mas o que essas histórias mostram é que essas pessoas tiveram grande sucesso, no mínimo, apesar da procrastinação.

Antes de falarmos dos benefícios de dominar a arte da procrastinação, vamos começar com uma definição objetiva da palavra, pois mal entendidos muitas vezes ocorrem por causa de diferentes significados da mesma palavra.

Enquanto umas pessoas - incluindo cientista psicológico e opositor à procrastinação Timothy A. Pychyl - definem a procrastinação como um “atraso voluntário da ação pretendida com a expectativa de um resultado possivelmente pior”, o dicionário Houaiss define “procrastinar” como “marcar para outro dia ou deixar para depois; adiar, postergar”.

A definição do dicionário é a que estou usando aqui:

A procrastinação é quando você tem tempo para fazer algo, mas deliberadamente espera até o último minuto para fazê-lo.

Embora seja meio polêmico escrever um artigo elogiando a procrastinação, é difícil negar que ela tem seu lado positivo.

A seguir, vou tentar expor uma visão equilibrada, compartilhando tanto os benefícios da procrastinação como seus efeitos negativos.


1. Adiar as coisas diminui os níveis de estresse (a princípio).

Em 1997, os pesquisadores Roy Baumeister e Dianne Tice conduziram duas pesquisas com estudantes universitários para determinar se a procrastinação afetava as notas, saúde ou bem-estar da pessoa.

O que descobriram na Pesquisa 1 foi que, embora os procrastinadores tivessem notas mais baixas, sua saúde era melhor do que a dos que não procrastinavam.

Os pesquisadores notaram, no entanto, que isso pode ter acontecido porque a Pesquisa 1 foi realizada no começo do semestre, e os efeitos negativos na saúde geralmente surgem mais tarde, quando os prazos e as provas chegavam no fim do período letivo.

Para contrabalancear essa parcialidade, Baumeister e Tice conduziram a Pesquisa 2 mais tarde no semestre, replicando os métodos da Pesquisa 1.

Dessa vez, os procrastinadores relataram mais sintomas de enfermidades, mais estresse e mais visitas a médicos do que os que não procrastinavam, levando os pesquisadores a concluir: “Os procrastinadores podem usufruir de uma vida saudável e sem estresse quando os prazos estão longe, mas sofrem mais do que outras pessoas quando os prazos começam a chegar”.

2. A procrastinação aumenta a criatividade.

O professor Adam Grant, da Universidade da Pennsylvania, diz que nossas primeiras ideias são geralmente as mais convencionais e que, se esperarmos e dermos um tempo, vamos ter ideias realmente originais.

Seu livro Originais: Como os Inconformistas Mudam o Mundo contém pesquisas e exemplos que apoiam a teoria de que a procrastinação aumenta a criatividade. Sua nova maneira de pensar — Grant antes era um “pré-crastinador” que terminava suas tarefas o quanto antes — foi inspirada por uma de suas ex-alunas, Jihae Shin.

Em sua dissertação, Shin, agora uma professora na Universidade de Wisconsin, fez uma pesquisa com funcionários em duas empresas diferentes perguntando sobre tarefas no trabalho, nível de desempenho e nível de procrastinação. Ela então pediu que os supervisores avaliassem o desempenho de cada funcionário.

Os resultados mostraram que os funcionários que procrastinavam eram frequentemente os mais criativos.

3. Esperar até o último minuto faz com que terminemos as tarefas mais rápido.

Descrita pelo escritor Cyril Northcote Parkinson em um artigo publicado pela revista The Economist em 1955, a Lei de Parkinson (embora não seja uma lei científica) diz que o trabalho se expande baseado no tanto de tempo reservado para ele.

Vários estudos foram conduzidos sobre a Lei de Parkinson e, de acordo com pesquisadores de Berkeley, parece que é verdade: se você der a uma pessoa 30 minutos para realizar uma tarefa, ela provavelmente vai terminar em 30 minutos. Se der 15 minutos, ela termina em 15.

Os pesquisadores observaram, no entanto, que a pressão do tempo geralmente sacrifica a qualidade em favor da velocidade.

Então, será que os procrastinadores têm um método? Será que aprenderam a adiar uma tarefa para criar um senso de urgência que vai, no fim, economizar tempo?

4. Adiar intencionalmente nos ajuda a tomar melhores decisões. 

Quando se trata de decisões, você tende a seguir seu instituto o mais rápido possível ou a considerar suas opções por muito tempo?

O professor Frank Partnoy, da Universidade de San Diego, que não confia na tomada rápida de decisões, declara que a procrastinação — a que ele se refere como “administração do adiamento” — pode nos ajudar a tomar decisões melhores.

Em seu livro Wait: The Art and Science of Delay (“Espere: A Arte e a Ciência do Adiamento” — sem edição em português), Partnoy escreve: “Geralmente devemos adiar o momento da decisão até o último instante possível”. Fazer isso, diz ele, nos dá o máximo de tempo possível para colher informações e pensar em possíveis soluções.

5. A procrastinação melhora nosso humor e aumenta nossa energia.

Se você, como várias pessoas, assiste a vídeos de gatinhos na internet para adiar suas tarefas, vai gostar das boas novas vindo da comunidade científica: uma pesquisa da Universidade de Indiana concluiu que fazer isso pode melhorar tanto seu humor como sua energia.

Em uma enquete com quase 7 mil usuários da internet, os respondentes relataram ter menos emoções negativas (como ansiedade e tristeza), mais emoções positivas (como esperança e felicidade) e níveis mais altos de energia depois de assistir a vídeos de gatinhos.

“Mesmo que eles estejam assistindo a vídeos de gatinhos no YouTube para procrastinar ou enquanto deveriam estar trabalhando”, explica Jessica Gall Myrick, autora da pesquisa, “a recompensa emocional pode ajudar as pessoas a enfrentar as tarefas difíceis depois”.

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O lado sombrio da arte da procrastinação: sim, tem efeitos negativos também

Seria negligência ignorar os efeitos negativos da procrastinação, apesar de serem discutidos com frequência. Talvez você já até sentiu esses efeitos em sua própria vida.

Lembra a pesquisa de Baumeister e Tice que revelou que, no curto prazo, os procrastinadores relataram ter melhor saúde? Aqui está o que concluíram em uma segunda pesquisa, mais tarde no semestre:

  • No longo prazo, a procrastinação é estressante. Embora os estudantes que procrastinam relatem níveis mais baixos de estresse do que seus colegas que não procrastinam no começo do semestre, no final seus níveis de estresse estavam mais altos do que os dos que não procrastinam.
  • A saúde pode piorar. Todos os efeitos benéficos da procrastinação na saúde, no começo do semestre, sumiram no final. Na Pesquisa 2, os procrastinadores relataram ter mais sintomas e mais visitas a médicos do que os não procrastinadores.
  • O desempenho pode ser prejudicado. Em ambas pesquisas, Baumeister e Tice descobriram que os estudantes que procrastinavam tiravam notas significativamente mais baixas.

Está esperando o quê? Faça a arte da procrastinação funcionar a seu favor

Se a procrastinação estiver prejudicando você ou se você a estiver usando como uma forma de auto-sabotagem, há maneiras de parar de procrastinar.

Por outro lado, se você perceber que consegue desempenhar bem, apesar da procrastinação (ou até graças a ela), você pode estar desfrutando dos benefícios da arte de procrastinar.

Então, como você pode aproveitar o poder da procrastinação? Trata-se de aprender como “administrar o adiamento”, como define Partnoy, para que ela funcione a seu favor.

Inclusive, os pesquisadores Angela Hsin Chun Chu e Jin Nam Choi fizeram uma importante distinção entre procrastinadores ativos (aqueles que funcionam melhor sob pressão e tomam decisões deliberadas de procrastinar) e procrastinadores passivos (aqueles que são paralisados pela indecisão e não terminam seu trabalho na hora).

Eles concluíram que os procrastinadores ativos podem usufruir de alguns benefícios de que os não procrastinadores desfrutam.

Se você quer ser um procrastinador ativo, aqui estão algumas sugestões baseadas nas pesquisas mencionadas neste artigo para que você faça a escolha consciente de procrastinar com eficácia:

  • Decida se a tarefa que você está procrastinando requer criatividade. Se você está procrastinando o design de um panfleto para o trabalho, então talvez esperar até o prazo chegar mais perto aguce sua criatividade. No entanto, se você está procrastinando o agendamento de uma consulta no dentista, pode ser melhor tirar isso da frente, pois não requer criatividade.
  • Pergunte para você mesmo se as circunstâncias da sua vida serão menos estressantes se você esperar até mais tarde. Pesquisas mostram que os procrastinadores usufruem de uma diminuição do estresse no curto prazo. Então, embora você não preveja o futuro, se você acha que sua agenda será menos corrida e suas circunstâncias pessoais serão menos estressantes depois, pode valer a pena esperar até as coisas acalmarem para fazer a tarefa que você está adiando.
  • Estabeleça prazos rígidos. Se a Lei de Parkinson for verdadeira e o tempo que leva para fazer uma tarefa aumenta de acordo com o tempo reservado para ela, então não faz sentido reservar vários meses para, por exemplo, limpar seu armário. Reserve um fim de semana só, assim é provável que você termine até a segunda-feira.
  • Na hora de tomar uma decisão, descubra quanto tempo você tem para isso. Partnoy não confia em se guiar apenas pelo instinto. Em vez disso, ele recomenda que você descubra quanto tempo você tem para tomar uma decisão, e depois espere até o último minuto possível e fazer a melhor escolha.
  • Assistir a um vídeo de gatinho? Se sua energia estiver baixa e a ansiedade, alta, uma pesquisa da Universidade de Indiana sugere que talvez faça bem assistir àquele vídeo de gatinho (de novo).

Embora poucas pessoas tenham uma história de sucesso sobre a procrastinação tão épica quanto a de Hunter S. Thompson, se entendermos os possíveis benefícios da procrastinação, pelo menos teremos mais chances de fazer nosso melhor. Isto é, se não adiarmos fazer esse melhor também.

Seja algo negativo ou positivo, adoraríamos ouvir o que você acha. Escreva para atendimento@trello.com.

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