Pratique a comunicação não-violenta e evite mal-entendidos no trabalho

comunicação não violenta CNV

“Como sempre, você não desligou a luz ao sair da sala de reuniões.”

Essa frase aparentemente simples é na verdade uma bomba-relógio que pode destruir a sua relação com seus colegas de trabalho.

Mesmo tendo sido formulada com a melhor das intenções, a frase é cheia de julgamentos, avaliações, estratégias e ordens.

E pode apostar, alguns comentários indiretos como esses podem causar seus maiores problemas no trabalho.

O fato é: para ser produtivo e alcançar suas metas, você precisa se comunicar bem com os outros.

É importante estar ciente de como você conversa com as pessoas à sua volta.

Você vai melhorar suas relações no trabalho e, consequentemente, vai ter mais sucesso.

Existe um framework que você pode usar para se comunicar com mais clareza e com melhores resultados, mesmo com mensagens para “pegar no pé” como lembrar alguém de arrumar a sala depois de uma reunião.

Aprender algumas dicas com a comunicação não-violenta pode melhorar muitos aspectos das suas experiências cotidianas com seus colegas de trabalho e em outros aspectos da sua vida também.

Os círculos da vida (e da comunicação)

As interações diárias que você tem com outras pessoas podem ser divididas em três círculos sociais diferentes:

  • O círculo íntimo: relacionamentos íntimos com uma comunicação frequente. São geralmente parentes e amigos, mas muitos incluem colegas de trabalho, dependendo do nível de intimidade que você tem com eles.
  • O círculo externo: pessoas que não conhecem você e com quem você só interagiu uma vez, como caixas de loja, motoristas de ônibus, estranhos na rua, etc.
  • O círculo intermediário: qualquer pessoa no meio termo, o que pode incluir colegas de trabalho, alunos, pais dos amigos dos seus filhos, etc.

Você interage constantemente com esses três círculos de maneira dinâmica.

Às vezes, você está em dois ao mesmo tempo.

Outras vezes, as fronteiras entre o círculo “intermediário” e o “íntimo” se misturam.

Então, qualquer atitude que você tem com um, terá um impacto indireto em como você interage com outro.

Recentemente, passei por uma situação estressante em casa, na qual minha comunicação com meu círculo íntimo estava cheia de conflitos.

Então, percebi que esses conflitos estavam gerando um impacto nas minhas interações com meus colegas de trabalho: comecei a ter menos empatia por eles e me tornei mais tensa e exigente nas interações em reuniões e durante conversas para solucionar problemas.

Presa em um loop infinito, essas interações ineficazes imediatamente me estressaram, então fiquei ainda mais agressiva na minha comunicação em casa, continuando o ciclo vicioso de comunicação tóxica.

Como eu não queria que a situação piorasse, comecei a procurar práticas que poderiam me ajudar a trazer paz para meus relacionamentos.

Foi aí que me recomendaram o livro do Marshall Rosenberg chamado Comunicação Não-Violenta: Técnicas para Aprimorar Relacionamentos Pessoais e Profissionais.

A comunicação não-violenta (abreviada como CNV) é uma técnica de comunicação desenvolvida por Rosenberg que pode ajudar qualquer pessoa, mesmo em situações cheias de conflito como a guerra, a se comunicar de modo mais eficaz.

Como aplicar a comunicação não-violenta

Não é surpresa que ter uma boa comunicação com outras pessoas começa por ter mais empatia com nós mesmos.

A mudança de hábitos não é fácil, especialmente quando estão ligados a sentimentos mais profundos. É essencial não se culpar quando praticar a comunicação não-violenta, pois é extremamente comum não dar certo de primeira.

Para ajudar as pessoas a melhorarem a qualidade de seus relacionamentos, Marshall criou um framework baseado em quatro pilares:

  1. Observação (em vez de Julgamento)
  2. Sentimentos (em vez de Avaliações)
  3. Necessidades (em vez de Estratégias)
  4. Pedidos (em vez de Ordens)

Essa abordagem é usada tanto para se expressar como para ouvir.

Ao aprender a (1) observar sem fazer julgamentos, (2) identificar e expressar seus sentimentos, (3) assumir a responsabilidade por seus sentimentos e (4) pedir o que torna sua vida mais plena, é mais provável que você trate as outras pessoas com empatia e se comunique com mais eficácia.

O autor nos encoraja a nos comunicarmos efetivamente em termos desses quatro elementos da comunicação não-violenta.

Para facilitar o entendimento, aqui está um antiexemplo, ou seja, um exemplo de comunicação violenta:

“Você chegou atrasado, isso é muito desrespeitoso”.

Ao usar esse tom, você está julgando que a pessoa está atrasada e não está explicando com fatos que a pessoa pode ter chegado mais atrasada do que você esperava a um compromisso específico.

Em vez de expressar seus próprios sentimentos, você está culpando a outra pessoa — além de não expressar suas necessidades ou fazer um pedido específico.

Uma forma de reformular a frase de maneira não violenta seria:

“Quando você chega 10 minutos atrasado a uma reunião que marcamos juntos (observação), eu me sinto desrespeitado (sentimentos), pois a pontualidade é importante para me mostrar que você está comprometido com nossas reuniões (necessidades). No futuro, você poderia chegar na hora? (pedido)”

Essa frase usando a comunicação não-violenta pode não parecer natural (e muito longa), mas conforme você vai praticando, ela vai ficando mais curta e natural sem deixar de expressar a mesma empatia.

Dicas para experimentar a comunicação não-violenta

Aqui estão algumas dicas para melhorar a sua comunicação não-violenta sem deixar de ser você:

CNV para conversar consigo 

O primeiro passo para melhorar a sua CNV é estar ciente de que você pode estar com algum bloqueio que lhe impede de se conectar plenamente com a sua essência.

Faça uma autoavaliação: você está se sentindo desconfortável, bravo, impaciente, defendendo uma opinião, culpando, explicando, buscando punição, julgando moralmente, diagnosticando os outros ou tendo a “necessidade” de estar certo?

Nenhuma dessas condições é "ruim" por natureza.

Na verdade, aceitá-las é o primeiro passo em direção à autoconsciência, que vai ajudar você a identificar seus bloqueios e a mudar sua atitude para se conectar com seus sentimentos.

É essencial usar a empatia consigo mesmo para reconhecer seus gatilhos.

Em uma situação de conflito, se a sua conclusão é “A outra pessoa me fez sentir triste/com raiva/desrespeitado/etc”, você está deixando que as pessoas ao seu redor controlem suas emoções.

Se você inverter a frase assim: “Quando as vejo fazendo isso, eu me sinto triste/com raiva/desrespeitado/etc, porque preciso de reconhecimento/respeito/etc”, então suas emoções são um resultado de um processo interno que você mesmo controla.

Reconhecer quais situações tendem a lhe gerar emoções negativas, como avaliações trimestrais ou retrospectivas de projetos, vai ajudar você a criar um sistema para compreender e controlar melhor essas emoções antes de elas controlarem as suas palavras.

Pausa para a prática

Pare de ler e reflita consigo mesmo agora. O que você está sentindo? Quais necessidades estão por trás desse sentimento? Tente se conectar com pelo menos uma Necessidade.

— Ike Lasater, no livro Words That Work in Business (“Palavras que funcionam em negócios” em português)

A CNV silenciosa

Em seu livro Words That Work In Business - acima mencionado - o autor Ike Lasater sugere que você pratique a comunicação não-violenta silenciosamente com seus colegas de trabalho como um primeiro passo para introduzir o conceito ao seu círculo intermediário.

Quando você notar que pode ter sido violento ao se comunicar com um colega, reformule a frase internamente usando o framework da comunicação não-violenta.

Você também pode refletir sobre o comportamento de outra pessoa usando o framework, o que vai ajudar você a direcionar sua energia de forma mais construtiva.

Pausa para a prática

Reflita sobre a sua interação mais recente com alguém, mesmo que curta. Qual necessidade essa pessoa pode ter tentado suprir com as palavras ou ações dela?

— Ike Lasater

Alternar entre a CNV consigo mesmo e a silenciosa é uma boa maneira de praticar e aprender a ser mais consciente de si e dos outros sem chamar atenção ou causar desconforto.

Por exemplo, seria bem estranho se, no meio de uma reunião, você parasse para falar em voz alta e detalhadamente sobre seus sentimentos.

O passo seguinte para melhorar suas habilidades de comunicação não-violenta é começar a comemorar o progresso e a se importar com os erros.

Você deve reconhecer quando as necessidades são supridas e quando não, para compreender o porquê e como mudar isso.

O aprendizado da prática em silêncio vai ajudar você a ganhar confiança e começar a verbalizar essa comunicação não-violenta.

Pausa para a prática

1) Escolha uma situação recente em que você queria ter agido diferente. Pare um momento para sentir isso e pense em como você gostaria de ter agido.

2) Pense em algo legal que aconteceu recentemente no trabalho, mesmo que simples.

Como você poderia comemorar isso com seus colegas?

— Ike Lasater

Praticando em voz alta

Escolha os seus círculos. O conselho de Ike é começar a experimentar a comunicação não-violenta com seu círculo externo.

Ao praticar com estranhos, você vai sentir menos vergonha de formular seus sentimentos de um jeito que ainda não parece natural, e eles não vão notar uma mudança ou desconforto já que não conhecem você.

Essa prática vai lhe dar confiança para também usar essa nova ferramenta de comunicação com as pessoas que conhece.

Busque alguém que queira praticar com você. Ike recomenda que você, então, passe para o círculo íntimo de relacionamentos, pois essas pessoas são provavelmente as que terão mais empatia por você.

No entanto, ele recomenda que primeiro você encontre uma pessoa de confiança que esteja disposta a praticar a nova forma de comunicação com você.

Peça a ela que lhe avise caso se sinta desconfortável com a prática.

Pausa para a prática

Quem, no seu círculo íntimo, gostaria de praticar com você? Pratique como você faria o pedido.

— Ike Lasater

Para passar para o círculo intermediário, especialmente com colegas de trabalho, é importante que eles concordem em se comunicar de forma não violenta, antes que você comece a praticar.

Entrem em acordo quanto à diferença entre um pedido e uma ordem.

Se alguém está um fazendo algo por medo de punição ou crítica, então isso é uma ordem.

Na meu caso, tenho praticado a comunicação não-violenta com meu círculo externo e íntimo há alguns meses.

Tenho certeza de que isso tem me ajudado a trazer mais paz aos meus relacionamentos.

Eu me sinto mais calma e mais consciente dos meus sentimentos e entendo muito melhor os meus gatilhos.

Recentemente comecei a praticar a comunicação não-violenta silenciosamente no trabalho e consegui identificar várias situações em que eu poderia ter usado uma linguagem ou abordagem diferente com meus colegas.

Ainda não tive coragem para fazer um acordo formal de comunicação não-violenta com eles, mas já estabeleci essa meta para o mês que vem.

Para ajudar a melhorar minha comunicação não-violenta, também comecei a frequentar um grupo de leitura no Facebook.

Tenho encontros regulares com outras pessoas que estão enfrentando os mesmos desafios, e isso tem sido muito útil para me passar confiança.

Dessa forma, eu aprendo mais rápido.

Conte a sua própria história de sucesso

Pense na fábula de Esopo sobre o Vento do Norte e o Sol:

Certo dia, o Vento e o Sol estavam discutindo sobre quem era mais forte. Quando surgiu um viajante na estrada, eles decidiram resolver a questão descobrindo quem conseguiria tirar o casaco do homem primeiro.

O Vento soprou o mais forte que pôde, usando potentes rajadas de ar para erguer das costas do homem o casaco. Por fim, o homem simplesmente se inclinou e apertou melhor o fecho do casaco usando as duas mãos.

Então, foi a vez do Sol... Lentamente ele começou emanar raio após raio com muita delicadeza. O viajante, sentindo calor em sua jornada, tirou o casaco com um sorriso, admirando o clima gostoso.

Mesmo em meados do século VI a.c., os seres humanos já tinham aprendido que fazer um pedido com gentileza e carinho gera melhores resultados do que na força bruta.

Apesar disso, os estresses da vida e a desejo de fazer as coisas rápido geralmente atrapalham essa abordagem.

Da próxima vez que você estiver se preparando para uma conversa desconfortável com um colega de trabalho, respire fundo, seja gentil consigo mesmo e experimente uma abordagem não-violenta na conversa.

Seja algo negativo ou positivo, adoraríamos ouvir o que você acha. Escreva para atendimento@trello.com.

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